Child of Eden

Uma obra de arte sinestésica

Videoanálise
Lumi, do italiano, luz. Pode até parecer algo inútil, mas essa pequena informação tem muito a dizer sobre Child of Eden, novo game da Q Entertainment a chegar ao Xbox 360. Isso porque a única personagem do título traz em seu nome toda a essência do jogo: a iluminação. Como é possível conferir nas imagens divulgadas antes do lançamento, toda a experiência gira em torno dessas luzes multicoloridas que dão um show na tela da TV e nos levam a uma viagem totalmente psicodélica.
Embora nada daquilo pareça fazer sentido, a nova produção de Tetsuya Mizuguchi é completamente coesa e, por incrível que pareça, imersiva. Fazendo jus a seus trabalhos anteriores, Mizuguchi ousa novamente e aposta em um universo conceitual em tempos de gráficos ultrarrealistas. O resultado, embora estranho e confuso à primeira vista, é um dos melhores jogos para o Kinect. Child of Eden é, sem sombra de dúvidas, a confirmação de que video game também é arte.
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Viagem lisérgica pelo mundo dos computadores
Para conseguir tirar o máximo proveito da viagem proporcionada pelo título, é preciso compreender a história na qual a explosão de cores está inserida. Como dito anteriormente, a única personagem existente em Child of Eden é Lumi, um menina que nasceu em 2019 em uma estação espacial e cujo maior sonho é conhecer as belezas da Terra. Durante toda sua vida, ela expressa seus sentimentos em forma de canções ao povo do planeta.
Após sua morte, suas memórias foram armazenadas em arquivos digitais, ajudando a humanidade a construir o chamado Eden. Essa evolução da internet possui todo o conhecimento do mundo e as sensações da Terra, fazendo com que aqueles que, como Lumi, nunca conheceram este mundo possam ter uma ideia de como é nosso universo.
Como forma de agradecer a menina que permitiu esse progresso, cientistas do século XXIII recriaram seu subconsciente dentro do Eden, permitindo que ela contemple tudo aquilo que ela sonhou em vida. No entanto, os arquivos do Projeto Lumi são atacados por um vírus e a garota se perde dentro do ambiente virtual, que é totalmente desconfigurado.

Aprovado

É a partir somente dessa proposta – apresentada de modo fantástico em uma das aberturas mais bonitas dos games – que Child of Eden tem início. Viajando entre os arquivos corrompidos do projeto de recriação humana, somos convidados a conhecer a visão de Lumi sobre nosso planeta, assim como seus sentimentos por nós que aqui vivemos.
Sinestesia completa
Um jogo é, acima de tudo, uma manifestação luminosa ocorrida na TV. Ainda que a atual geração tenha conseguido fazer com que esses pontos de luz se transformem em reproduções realistas da forma humana, ainda são pequenos brilhos na tela que nos permitem enxergar esse novo mundo à nossa frente. Contudo, em Child of Eden, a utilização desse elemento é feita de um modo completamente diferente.
O título vai totalmente na contramão dessa tendência de transformar video games em filmes e volta à essência daquilo que transformou os jogos em um estilo novo de entretenimento: o uso de luzes para criar um mundo abstrato e ao mesmo tempo coerente. No caso do Projeto Lumi, as infinitas cores e formas que surgem são recriações dos sentimentos da garota que sonhava em visitar a Terra, o que faz com que a experiência visual do título seja simplesmente fantástica.
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O grande ponto é que não se trata de gráfico. Quase não existem elementos tridimensionais ou que necessitem de um trabalho cuidadoso para saciar o desejo dos usuários apaixonados por realismo. Tudo gira em torno da direção de arte e na forma com que isso vai atingir e envolver o jogador. Sob essa ótica, é inegável que Child of Eden é simplesmente perfeito, pois é capaz de criar sensações diferentes sem usar nenhuma palavra, apenas expondo efeitos luminosos em movimento.
Cada fase possui uma temática diferenciada e com elementos únicos, indo desde as belezas do mundo à criação das máquinas. Como a repetição de recursos e desafios é mínima, cada nível avançado se torna uma nova etapa dessa viagem e com espetáculos únicos a serem contemplados. É impossível ficar indiferente às células que se dividem para se transformarem em uma baleia e, por fim, em uma fênix.
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É claro que a viagem não faria sentido algum se ela não fosse sinestésica, ou seja, não envolvesse outros sentidos na experiência. É por isso que a trilha sonora do jogo é tão importante, pois ela é o canal que liga a pessoa em frente à TV ao universo de Eden.
Todas as canções apresentadas são melodias enviadas por Lumi às pessoas da Terra. Não coincidentemente, a personagem é também a única “integrante” do grupo Genki Rockets, do qual o produtor Tetsuya Mizuguchi faz parte. É a partir dessas músicas que as cores e formas dançam e fazem com que outros elementos surjam.
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Mais do que isso, os próprios efeitos sonoros causados pelo jogador interferem na trilha apresentada. Atacar inimigos adiciona novos acordes ao canto de Lumi, variando de acordo com o momento em que isso ocorre. Som de piano surge quando certos vírus são apagados, enquanto batidas mais agitadas são ouvidas quando os chefes são atingidos por seus disparos. Nenhuma ação sai sem uma reação em Child of Eden.
Mergulho sensorial
Se a TV é responsável por explorar a visão e a audição do jogador nessa experiência sensorial, o Kinect aprofunda isso e adiciona o tato como outro recurso utilizável na jornada para salvar o Projeto Lumi. Trata-se do melhor uso do acessório até agora.
Com o auxílio do aparelho, o jogador realmente mergulha em Eden e tem a sensação de que faz parte daquele universo. Além disso, a resposta do periférico é muito boa e consegue ser ainda mais eficiente do que o joystick tradicional. Isso porque cada mão corresponde a uma arma: a direita é um laser que trava a mira em vários inimigos simultaneamente para eliminá-los de uma só vez, enquanto a esquerda funciona como uma espécie de metralhadora. A jogabilidade é semelhante à de Rez, ou seja, um shooter cujo objetivo é eliminar tudo o que surgir na sua frente.
A troca entre esses equipamentos é muito simples, bastando que você levante o braço correspondente ao tipo de disparo para que o sensor identifique o que deve ser feito. Além disso, ao erguer os dois membros acima de sua cabeça, você dispara o Euphoria, um golpe especial que elimina todos os vírus existentes na tela.

Reprovado

Ainda que seja possível usar o controle clássico, ele não possui o mesmo charme, além de tornar tudo muito mais simples. Por mais que isso não prejudique o jogo, boa parte da experiência de imersão se perde quando o Kinect é posto de lado.
A viagem é, na verdade, um passeio
Embora Child of Eden seja um jogo fantástico, isso não significa que ele é perfeito. Seu principal problema é a curta duração da campanha, já que as cinco fases existentes podem ser concluídas em poucas horas de jogo.
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Para maquiar isso, o estúdio adicionou alguns elementos que visam estender a jogatina, mas que não são tão eficazes assim. A mais irritante delas é a falta de checkpoints nas fases, o que obriga o jogador a retornar pela fase inteira caso falhe em algum momento. Como os estágios são longos, pode ser frustrante ter de refazer todo o trajeto por causa de um erro bobo.


Vale a pena?

Além disso, faltam alguns modos extras que ampliem a vida útil do título. Sem um modo multiplayer ou desafios extras, tudo o que resta após resgatar Lumi é voltar aos arquivos anteriores para obter uma melhor pontuação. Em um país em que lançamentos custam R$ 199, essa é uma questão que deve ser muito bem avaliada.
Estranho, psicodélico e encantador. Esse é Child of Eden, um dos melhores títulos lançados neste ano e, sem dúvidas, o melhor jogo para o Kinect até o momento. Com uma proposta ousada e completamente fora do usual, o game provoca sensações diferentes no jogador e o leva a um mergulho quase lisérgico no universo digital de Eden.
Com uma direção artística impressionante e uma trama simples e envolvente, a produção mantém a excentricidade de seu criador e mostra que uma boa história nem sempre é uma grande epopeia, mas uma obra de arte construída com pouquíssimas palavras. Child of Eden é a prova de que você não precisa entender o enredo, mas apenas senti-lo – e o resto é pura imaginação.

92Paulo (CGBR)
  • GráficosNota 100
  • JogabilidadeNota 95
  • ÁudioNota 100
  • DiversãoNota 95



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