Saw II: Flesh & Blood

Após jogar o Saw 2: Flesh and Blood, fica fácil justificar a afirmação da Konami de que Saw não seria uma franquia para concorrer com a já clássica Silent Hill. E isso por dois motivos bastante claros.
Mantendo um pouco de “boa vontade”, você pode considerar que a proposta por trás da adaptação de Jogos Mortais para video game é razoavelmente distinta da marca registrada de Silent Hill. Afinal, a ideia aqui parece ser menos a de criar um terror psicológico requintado do que de oferecer um festim sanguinolento promovido por uma leitura um tanto extremista da figura de um anti-herói — o já popular “Jigsaw”.
Entretanto, conforme poderia atestar qualquer fã da já terrivelmente extensa filmografia de Jogos Mortais, a definição acima diz respeito apenas à proposta por trás dos filmes. De fato, a versão em game de Saw não deve concorrer com Silent Hill tão cedo por outro motivo, este muito mais específico: a baixa qualidade com que os sadismos das películas foram convertidos em pixels.
Não que o primeiro título (Saw: The Video Game) não gerasse algumas esperanças. Afinal de contas, deslizes técnicos à parte, a história tinha méritos óbvios. Restava, portanto, afinar algumas coisas para que Flesh and Blood pudesse, por fim, ficar à altura dos filmes — pelo menos da primeira parte deles…
Mas, adivinhe? Isso não ocorreu. Não apenas Saw 2 repete os mesmos deslizes do seu antecessor, como ainda consegue piorar boa parte do que funcionava — mesmo que não fosse lá essas coisas.
Em suma, os puzzles estão agora ainda mais repetitivos, os combates diretos tornaram-se ainda mais frustrantes e a qualidade gráfica é francamente risível para um título da sétima geração. O que se mantém? A boa história… Mas essa é um legado direto do filme, certo? Pois é. Aos detalhes…
Aprovado
Atmosfera característica
Flesh & Blood certamente merece o mesmo ponto positivo que nós demos para o seu antecessor. De fato, desde o início, a atmosfera característica do título se faz presente. Você não é caçado por zumbis, e também não perambula por uma cidade amaldiçoada. Trata-se de algo completamente idiossincrático aqui: você está enclausurado em uma imensa armadilha arquitetada por um sujeito tão doentio quanto brilhante.
De fato, o “feeling” próprio de Jogos Mortais se faz presente logo no início, uma cena bastante familiar para quem assistiu ao segundo filme da série. Trata-se da sequência em que o viciado em drogas  Campbell deve retirar do próprio olho uma chave para desativar uma armadilha das mais insalubres, a “Venus Fly Trap” — uma máscara cheia de espinhos que se fecha como uma planta carnívora no tempo programado.
Na verdade, trata-se aqui apenas de uma espécie de prólogo. A história principal é localizada em algum momento entre o primeiro e o segundo filme, e foca em Michael Tapp, filho do detetive David Tapp, que deve se entranhar pelos jogos asquerosos de “Jigsaw” para elucidar os acontecimentos que culminaram no suicídio do seu pai.
Alguns puzzles são criativos
Img_normalEmbora Saw 2 às vezes explore em demasia alguns padrões reduzidos de puzzles, fato é que, vez ou outra, alguns desafios são mesmo capazes de acrescentar algum tempero à jogabilidade geral de Flesh and Blood.
Tente abrir uma fechadura trancada, por exemplo. Em vez de fazer algo prosaico como simplesmente levantar alguns pinos ou quebrar alguma coisa, o jogo vai transferi-lo momentaneamente para um estilo de jogo que se poderia chamar de “prego em primeira pessoa”, colocando a sua visão dentro da fechadura para uma sequência que bem poderia ser confundida com uma viagem psicodélica.
Ademais, marcam presença novamente as clássicas mensagens ocultas, bem como os circuitos elétricos, as sequências de símbolos, as combinações numéricas e… bem, exatamente o que se poderia esperar de uma sequencia de Saw: The Video Game.
Com vocês, o Sr. Tobin Bell
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Jogos Mortais não seria Jogos Mortais não fosse a voz abatida, rouca e um tanto insana de John Kramer, interpretado nos cinemas pelo excelente Tobin Bell. Bem, trata-se sem dúvida de um dos pontos altos de Flesh and Blood. Na verdade, é realmente difícil não resgatar algo do clima dos primeiros filmes ao ouvir o pragmático “Jigsaw” dando as próximas coordenadas a partir da televisão de tubo mais próxima.
Mas justiça seja feita: não se trata apenas do Sr. Tobin. Na verdade, todo o elenco de dublagem faz um ótimo trabalho aqui, com diálogos que de fato convencem. Enfim, é realmente uma pena que a jogabilidade não tenha feito a sua parte para sustentar a atmosfera adequadamente (confira nos tópicos abaixo).
Reprovado
A pior de todas as armadilhas: o sistema de combates
Imagine o seguinte pesadelo: um belo dia, ao acordar, você percebe que deve derrubar alguns brutamontes na pancada. Para isso você tem um belo e lustroso taco de beisebol nas mãos. Mas aí vem a parte realmente terrível: você não pode simplesmente rachar a cabeça do seu inimigo feito um coco. Não… Você deve esperar uma ridícula barra amarela surgir para, só então, — com uma boa dose de sorte — tentar nocautear o sujeito.
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O ponto aqui é um só: o sistema de combates de Saw 2 consegue (incrivelmente) ser ainda pior que o do seu antecessor. O trecho acima representa um dos tantos mini games necessários sempre que algum inimigo precisa ser derrubado. Nada de simplesmente bater e assistir ao estrago.
Você precisa esperar que um cursor atravesse determinado setor de uma barra, ou que um comando específico apareça na tela. E pior: isso nem é muito claro da primeira vez que Michael deve bater em alguém — você passará algum tempo rodopiando em volta de um criminoso ensandecido enquanto tenta encontrar o botão de ataque… Unicamente para descobrir que deve esperar o sujeito enterrar a própria arma no chão, para então atacar. Patético.
Pixels vermelhos jorrando pela tela
Flesh and Blood poderia ter tudo para criar um clima de horror sem igual — confira o tópico “Atmosfera característica”. Afinal, trata-se aqui da adaptação de uma filmografia que, bem ou mal, conta com um estilo próprio apoiado em uma boa atmosfera e em um trabalho de dublagem bastante decente.
O problema é que a parte visual de Saw 2 apenas consegue reforçar a atmosfera do jogo quando… Bem, quando há escuridão por toda a parte. Isso porque, a partir do momento em que algo puder ser vislumbrado no cenário, os péssimos gráficos do jogo saltarão à vista, deixando inequivocamente claro que se trata apenas de um jogo.
É bom ter assistido aos filmes…
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Embora seja pouco aconselhável que um “não fã” de Jogos Mortais tente a sorte em Flesh and Blood, é bom deixar aqui um aviso: caso você não seja ao menos razoavelmente versado nas histórias dos filmes, provavelmente vai acabar boiando na história. Caso isso ocorra, das duas uma: ou você pausa o jogo e sai à cata de detalhes da história, ou encara o restante do game como uma sequência de puzzles e armadilhas sem muita razão de ser. De qualquer forma é frustrante.
Vale a pena?
Saw 2: Flesh and Blood bem poderia ser o jogo que tornaria mais requintada a experiência de Saw: The Video Game. Poderia ser o título que adicionaria mais qualidade a uma doutrina já devidamente instalada no gosto popular.
Só que realmente não foi assim. Flesh and Blood não apenas repete os mesmos erros do seu antecessor, como ainda consegue piorar coisas que pelo menos funcionavam parcialmente — o sistema de luta, por exemplo.
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